Tupi or not tupi

Nas andanças, gosto de imaginar que nos caminhos por onde passo há pegadas de tantas gentes. Há algumas que particularmente me enamoro em imaginar. Por algumas décadas de tempo e quilômetros de genialidade, mas há poucas quadras de espaço, Mario de Andrade e eu somos vizinhos. Nem que seja de canto de olho, arrisco sempre uma mirada na esquina da Lopes Chaves e Margarida na esperança de que ele surja na janela superior do sobrado ou que a gente se cumprimente naquele sorriso tímido sorriso de desconhecidos.

Mario também inspira nas minhas modestas pesquisas musicais e nutre delicadamente minha antropofagia. Sim, essa mesma, que em sua condição mais escancarada cai no colo de outro Andrade. Como atesta Oswald e eu confirmo: “Só me interessa o que não é meu”.

“Tupi, or not tupi that is the question”. Não tão somente a questão, é também parte considerável das minhas respostas. É que minhas raízes móveis habitam uma determinada porção de terra às margens soterradas do córrego Pacaembu. O meu pedaço de chão está cercado, por todos os lados, de indícios de nossa ancestralidade brasilis; registros pessoais que reuni nesta crônica sonora da série Pequenas Cápsulas do Tempo e Espaço.  

Há os versos iniciais de “Sagrado é o Meu Santo” de Paulo Atto na voz da atriz baiana Nilda Spencer que abre o disco do instrumentista, cantor e compositor Wilson Café, “Coração de Tambor” (Dabliú, 1997).  Do mesmo disco, há a introdução de “Asa  Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, criada pordes iniciais de uma das mais belas canções italianas “Anema ‘e Core” (Anima e Cuore – Alma e Coração) também integram a crônica. A versão que escolhi foi gerada no encontro do genial Toninho Horta com o cantor italiano Stefano Silvestri e celebrado no disco “No Horizonte de Napoli”. Encerram as inserções musicais os incríveis Xondaro MCs que cantam rap, o rap tupi-guarani, que cantam em sua língua materna ou mesclando os dois idiomas. Dignos representantes da Aldeia Guarani Jaraguá pontuam em seus raps questões não apenas de sua comunidade, mas que afetam os excluídos particularmente: violência, discriminação, manifestação cultural e inserção social.

Entre as palavras soltas, colhi algumas em tupi e que fazem parte do nosso dia a dia como abacaxi (que delícia!) e um pequeno trecho – em que cometi licença poética –  de um lindo poema de Mario de Andrade (ele de novo!). A íntegra:

“Poemas da amiga

VII

Gosto de estar a teu lado,

Sem brilho.

Tua presença é uma carne de peixe,

De resistência mansa e de um branco

Ecoando azuis profundos.

 

Eu tenho liberdade em ti.

Anoiteço feito um bairro,

Sem brilho algum.

 

Estamos no interior duma asa

Que fechou.”

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