Pequenas Cápsulas do Tempo e Espaço

Notícias de jornais e revistas, fotografias, cartas, moedas, brinquedos e coisinhas favoritas escolhidas a dedo no mundo do sem-fim são cacos de memória. Mas se forem reunidas podem resumir o nosso olhar sobre a vida cotidiana e a passagem do tempo.

São esses elementos que também recheiam as ancestrais cápsulas do tempo. Em sua condição de descrição pessoal de “como é viver o agora” guardam também a esperança da mínima curiosidade alheia ou da total, e generosa, cumplicidade.

Guardam ainda uma pretensiosa, e ao mesmo tempo, lúdica tentativa de driblar as horas e se esconder nas dobras do tempo e despertar no futuro junto de um destinatário escolhido por nós ou pela sorte.

A proposta de “Pequenas cápsulas do tempo e espaço” é lançar pequenas garrafas sonoras no mar internético. São áudio-crônicas tecidas por mim com diferentes tramas. A primeira delas são captações sonoras de minhas andanças por Sampa e alhures; locais que meu espírito e corpo flanam ou arfam, em total harmonia. Somam-se tramas musicais despertadas com a audição afetiva destas gravações de andarilha. Assim como o gênero, o compasso da música é orquestrado pelo que a narrativa pede. A urdidura se faz com a delicadeza e a forças das palavras que brotam do vozerio anônimo, da minha voz e de múltiplas vozes.

Tecendo as primeiras peças, constatei que mesmo tratando de recortes do aqui e agora, a narrativa exigia o lastro da memória mais ampla. Se crônica literária não se poupa disso, por que eu me constrangeria de usar este nobre recurso nas minhas modestas e pequenas cápsulas do tempo e do espaço?! Além da costura narrativa, os recheios sonoros atemporais alicerçam o meu ‘conceito’ de eternidade, aquele momento de uma estranheza gostosa em que o tempo estica e que a gente não sabe nem que dia está, mas tem certeza absoluta de se encontrar no terreno do afeto.

Desejo que algumas destes meus tesouros sonoros atraquem com carinho em seus pavilhões auditivos, ressoem além de tímpanos, estribos e bigornas e encontrem morada ao lado de suas impressões sonoras do mundo. Espero que proseiem longamente. Ou que permaneçam num silêncio morno e cúmplice.

Boa escuta!

Deborah Izola

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