A DERIVA E O ESPAÇO-TEMPO DOS SONS

Conceito

A “deriva” pode ser entendida como um método de imersão no espaço-tempo dos lugares que é praticado para (re)aprender e desenvolver novos modos de relacionar-se com a geografia da cidade.

A deriva enquanto experiência direta do sujeito com a cidade apoia-se no conceito de psicogeografia que define-se pelas trocas que o espaço urbano bem como as relações postas para os sujeitos na cidade nos influenciam nos modos de ser e de sentir a experiência do viver, do transitar enfim do existir nos lugares. A psicogeografia busca elucidar as interações entre humanos e os contextos ambientais, qualificando os efeitos do meio sobre o comportamento afetivo e os sistemas perceptivo e cognitivo dos  indivíduos (CARDOSO, 2011).

A deriva neste contexto revela-se como a prática e portanto, um método de atuação ligado ao aprendizado e a sensibilização dos indivíduos para o lugar por onde passam e existem. Ela busca sintonizar a experiência do circular, caminhar pela cidade de uma maneira mais consciente e desprendida dos aspectos simbólicos das regras e leis, da racionalidade geométrica e funcional da cidade e principalmente um desprendimento dos filtros que criamos para os  elementos sensoriais que nosso cérebro descarta por condicionamentos impostos pela forma como a cidade organiza sua lógica produtiva, o lugar como passagem e não como potencial de vivência e afetividade.

Dessa forma o sujeito a deriva guia-se pelas suas impressões e interesses fruto de motivações subjetivas e não determinadas pelas regras de eficiência normalmente orientadas por normas aprendidas e reproduzidas no seu cotidiano. A deriva pode ser entendida assim, como um “comportamento lúdico-construtivo; ligada a uma percepção-concepção do espaço urbano enquanto labirinto: espaço a decifrar (como decifrando um texto com características secretas) e a descobrir-se pela experiência direta.” (New Babylon, Constant – Art et Utopie, p. 14).

A deriva e a escuta consciente

Partimos de duas constatações:

1. As ondas sonoras constituem uma dimensão da realidade. Nos atravessam a todo momento!

2. A escuta é um sentido e uma capacidade nata do homem, mesmo que seja pela percepção de suas vibrações.

“(…) conforme Merleau-Ponty (1999), é por meio dos sentidos que o homem inicia sua comunicação com o ambiente. “O sentir é essa comunicação vital com o mundo que o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. É a ele que o objeto percebido e o sujeito que percebe devem sua espessura”. Também, “perceber no sentido pleno da palavra, que se opõe a imaginar, não é julgar, é apreender um sentido imanente ao sensível antes de qualquer juízo”. Desse modo, não percebemos realmente um mundo, mas o mundo é aquilo que percebemos.” (Lawrence Mayer Malanski)

Os lugares são e estão permanentemente atravessados por ondas sonoras de diferentes tipos. O espaço urbano primordialmente concentra e mesmo é saturado por ondas sonoras que se cruzam, conversam, se chocam a todo momento. A proposição de uma escuta consciente parte da sensibilização dos indivíduos para uma audição ativa dessa intensidade, volume e diversidade sonora, tendo o intuito de interpretar as características, propriedades e efeitos sobre o espaço dos lugares e principalmente sobre os indivíduos.

” Na sociedade moderna o som é tratado, muitas vezes, como um problema ambiental, sujeito, inclusive, a punições legais. Além disso, convivemos diariamente com enorme quantidade de sons provenientes das mais diferentes fontes e com diferentes intensidades, fazendo com que pessoas busquem se alienar propositalmente a esse então “incômodo” universo sonoro superpovoado. O que essas pessoas talvez não percebam é que: do mesmo modo que elas procuram se excluir desse universo, elas contribuem para sua formação.” (Lawrence Mayer Malanski)

A escuta consciente configura-se como um motivador das relações da cidade, seus sons e a subjetividade ativa dos indivíduos. Um trabalho de sensibilização e organização da cidade como um espaço sonoro dinâmico, objetivando um reencontro com a escuta dos lugares, um resgate de uma percepção mais refinada do espaço do(no) cotidiano e a busca de uma redefinição do conceito de som e ruído.

O mergulho no território, a Teoria da Deriva, segundo Guy Debord

“Uma ou mais pessoas se entregando à deriva renunciam, por uma duração mais ou menos longa, às razões de se deslocar e de agir que elas conhecem geralmente, às relações, aos trabalhos e aos lazeres que lhe são próprios, para se deixar ir por solicitações do terreno e dos encontros que lhe correspondem. (…) Pode-se derivar só, mas tudo indica que a divisão numérica mais produtiva consiste em vários grupos pequenos de duas ou três pessoas que chegaram a um mesmo estado de consciência; a análise conjuntadas impressões destes grupos distintos permitirá chegar a conclusões objetivas”. Acesso ao texto completo aqui

A preparação para a deriva sonora

A preparação para a deriva passaria por exercícios prévios de refinamento da escuta. Desde o exercício da chamada escuta em silêncio. Treinar o ouvido para a percepção das sutilezas sonoras em ambiências diversas, até exercícios efetivos de escuta em diferentes situações na cidade. Todos estes exercícios teriam anotações por escrito explorando os efeitos mais sensíveis nos indivíduos, bem com a sua captura para medições e possíveis composições de peças sonoras.

O conceito de deriva está indissoluvelmente ligado à lógica da criação de situações e ao reconhecimento do efeitos dos elementos em estudo no espaço sob um caráter lúdico-construtivo, o que o torna absolutamente oposto às tradicionais noções de viagem e de passeio (DEBORD, 1958. In: JACQUES, 2003, p. 87). Derivar, portanto, além de se relacionar com o estudo do meio urbano, seria uma forma de apropriação desse espaço pretendida pelas proposições de situações urbanas. Seria o jogo levado à seriedade.

 

REFERÊNCIAS

Mapas sonoros – cidades do mundo

MAPAS E PASSEIOS SONOROS

1) Fonoteca  Nacional do Mexico: A Fonoteca do Mexico é uma instituição pública dedicada a preservar e difundir o patrimônio sonoro do país. O grande diferencial é que esse patrimônio não é composto apenas de Música, mas também de Sons. Promove uma série de eventos ligados ao desenvolvimento de “ouvidos pensantes”, como caminhadas e bicicletadas para a percepção do entorno sonoro da cidade, podcasts semanais de Arte Sonora, até a criação de um Mapa sonoro do país e um banco de Sons em extinção.

2) Open Street Map: é uma plataforma livre que permite a publicação de arquivos de audio em mapas. Podemos visitar as sonoridades do trem, da ponte, da música e da chuva da cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, a partir do Mapa Sonoro de Cachoeira criado por alunos de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia orientados pela professora Ms. Marina Mapurunga.

3) SoundMap SP (Renata Roman): SP SoundMap é um mapa sonoro da cidade de São Paulo mantido por Renata Roman desde 2012 .É um projeto colaborativo para descoberta das sonoridades de nosso espaço urbano

4) Lonely London (Biancamaria, 2008): Passeio Sonoro inventado a partir da gravação de sons urbanos mixados com música e leitura de canção de Caetano Veloso por imigrantes em Londres.

5) India: de pássaros e bicicleta (Biancamaria, 2007): Passeio sonoro criado a partir de gravação de paisagem sonora à beira do rio Ganges, em Varanasi- India.

http://spsoundmap.com/#

https://www.facebook.com/SpSoundMap/

http://goodcitylife.org/chattymaps/index.php

http://soundcityproject.com/

http://www.soundcities.com/

http://citiesandmemory.com/sound-map/

 

Teoria da Deriva / Mapas de Arte

http://www.seer.ufrgs.br/cenamov/article/view/53708/0

http://www.revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/fem.2015.173.03/4989

http://www.artes.uff.br/dissertacoes/2008_ivan_albuquerque.pdf (capitulo 3 da tese)

http://urbanomnibus.net/2010/10/you-are-here-mapping-the-psychogeography-of-new-york-city/

http://www.papress.com/html/book.details.page.tpl?isbn=9781568987620

http://www.papress.com/html/book.details.page.tpl?isbn=9781568984308

http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-146(036).htm

http://www.soitu.es/soitu/2009/05/26/fotografia/1243332408_285254.html

 

Situacionismo e Zonas Autônomas Temporárias

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.035/696

http://pt.protopia.at/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_a_uma_cr%C3%ADtica_da_geografia_urbana

https://blogautonomiaproletaria.files.wordpress.com/2013/04/viver-novas-geracoes-digitalc3aa-completo-1.pdf

http://pt.protopia.at/wiki/Zona_Aut%C3%B4noma_Tempor%C3%A1ria

 

Deriva e educação

http://revistas.ufpr.br/raega/article/view/21775

https://makingmaps.net/2009/06/22/making-psychogeography-maps/

 

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